O Jardim dos Sonhos

Eu não sei como vai estar meu jardim amanhã
E a não ser que haja um pote de ouro no fim do arco-íris
Ele continuará não existindo

Eu espero que minha macieira dê maçãs
Mas embora eu a regue
Ela continua não fluindo

Se eu ao menos soubesse quando acaba o amanhã
Eu viveria o ontem com menos temores
Poderia fechar os olhos e tentar encontrar as flores
Não me preocuparia com os espinhos nem com os desadores

Eu não quero esperar o pôr do sol para poder o ver nascendo
Nem plantar uma árvore para então a ver crescendo
Se não posso mais mudar o que passou
Quero então dar um grande fim ao meu show

Sonho

É a última apresentação do dia. Ela sorri, acena para O Grande Homem sentado na cadeira enfeitada. Ela gira, fecha os olhos e simplesmente ouve a música e a expressa. É a mais bela dança já vista no universo, ela termina, inclina-se como em agradecimento. Silêncio.
Nada se move, O Grande Homem levanta-se e aponta para a porta de metal (a única porta do Grande Salão) e a bela dançarina arrasta-se para fora.

Um grito.
Passos.

Acordei.

Quando o palco se torna o front de batalha, obedecer já não é mais uma regra.

Aquele do Relógio

Odeio a palavra errado, e nem é por ela nunca estar certa.


Eu odeio essa das pessoas acharem que existe o errado
Foi criar a palavra "errado" e nada mais ficou certo, nunca mais!
Falo isso por que o relógio do meu celular é 15 minutos adiantado, e sempre que alguém diz que lá a hora está errada eu tenho que corrigi-lo alertando que o relógio não está errado e sim adiantado...

O meu relógio está certo, ele mostra exatamente a hora que vai ser daqui a 15 minutos.

Onde foi parar a felicidade?

Seja amável, essa é a regra. Não faça o que é supostamente ruim, esteja disposto a aceitar o que é supostamente bom. Acredite no que te dizem, não gaste seu vocabulário a toa, no final tudo se resolverá. Sorria, seja cordial, deseje bom dia e boa tarde, não corra, não chore, não grite e não fume! Não beba, não fale palavrões e não desrespeite os mais velhos.
Seja cuidadoso, não arrote na mesa e quando espirrar "coloque a mão na frente", não retruque, vá à igreja, pratique algum esporte, e busque sua felicidade. E onde ela foi parar? Está nos restaurantes requintados? Ou quem sabe esteja no enfeite de porta que diz: "aqui vive uma família feliz". A felicidade pode ter se escondido no vestido de noiva da garota que se casou aos dezoito porque estava grávida, ou então se sentou ao lado do garoto que pede moedas no semáforo. A felicidade está em cada copo de cerveja, em cada acorde de guitarra, em cada virada da bateria e em cada aperto de mão, está nos lábios daquela garota que você ama, ou nos braços de sua mãe. Na pequena pausa para o café, em quinze minutos de fama, ou atrás do arco-íris. Está no cartão de crédito, no cheque do marido, no carro do momento, no teclado do computador. Ou simplesmente em um sorriso.


Os senhores de uma única letra

A senhora S. era uma pessoa estranha, muito feia e irritante, bastante autista, não por opção na maioria das vezes, também agonizante, distante e indesejável. A qualquer lugar que ia era expulsa, ninguém gostava dela, afinal ela não era uma das melhores pessoas, tampouco uma boa pessoa.
A senhora T. é uma pessoa que você não gostará de encontrar por aí, com sua aparência horrenda, parecendo até mesmo um monstro, ela é chata e incompreendida, de uma melancolia que a torna distante, e assim solitária.
Já o senhor A., oh como ele é querido, fofo e até mesmo bobo, diferente à sua maneira, mas de uma felicidade contagiante, sempre muito cuidadoso e delicado, bastante afetivo e carinhoso, gostando de todos, sem nada a reclamar de ninguém, uma pessoa linda, andando sempre arrumadinho, com sua ingenuidade pura, parecendo uma criançinha. Ele é forte, mas nem sempre…
O senhor A. estava por aí, pulando e espalhando felicidade, todo confiante de si, quando encontrou com o senhor M. (uma pessoa horrível, inteligente e persuasiva, palpitava em tudo, e como tinha bons argumentos, sempre conseguia o que queria), este usou seus métodos e convenceu o senhor A. que ele não deveria ser assim, confiante e alegre o tempo todo, dúvidas logo surgiram e é claro, ingênuo como o A. é, sua confiança se transformou em incerteza, e não via-se mais aquela felicidade estampada em seu rosto.
Outrora o nosso querido amigo A. já havia se convencido de que o senhor M. estava certo, encontrava-se agora bêbado, em vez de pular, perambulava caindo aos cantos, não tinha mais a mesma certeza das coisas e não era mais o mesmo.
Depois de um tempo, o senhor A. morreu, sua casa foi vendida para a senhora S., a qual ele conhecera pouco antes de falecer, e a senhora S., com todos seus adjetivos já citados, agora encontrara alguma companhia, dividia o aluguel com a senhora T., que possuía o maior quarto, e como amigas, andavam sempre juntas, abriram um negócio e contrataram o senhor M., fariam com outros o mesmo que o M. fez com o A.